Sutilezas essenciais
Chove. A alguns metros de um novo mundo, aproximam-se dedos e chapéus. Já marcavam mais de dez horas da manhã de terça-feira, quando um jovem esguio foi a um espetáculo. Peles oleosas, peles secas, com ou sem pêlos, e muitas outras formas volumétricas marcavam o ambiente. Um som forte, longe ou molhado perfazia o cenário, que, ao mesmo tempo, era de muito brilho e de emoções. Aplausos. Silêncio das descrições. Descendo as escadas, nenhum sentido fazia sentido. Pés em todas as direções e o caminho sendo feito por um compasso firme, com tropeços e enganos.
Pé ante pé. Os dedos tocam a parede: imediatamente, o corpo é transpassado pelos centímetros de concreto até a Ilha de Manhattan. Sobe ou desce? Up or down? O Brasil continuava ali, mas os dedos guiavam para longe. Tal qual a força de um pensamento, a vontade de tempos idos movia os quirodáctilos para o inusitado desconhecido. Nem a Física supunha essa bizarra possiblidade de um corpo ocupar dois espaços tão distintos;
muito menos permite a máxima de dois corpos ocuparem o mesmo espaço. A aldeia onde moro é mais universal que as leis da gravitação; a escrita, nem tanto.
Passados trinta segundos, a Terra gira e o suporte das falanges metacarpianas retorna ao ponto de partida, com a porta do elevador aberta, com volumes e a falta de volumes habituais à sua vida em destaque. O que mais importa é a diferença - seja diferente.
16.12.08
12.12.08
Aqui jaz.
Choro amargo. Tristemente de mal gosto. Hoje, depois de lágrimas e fatos, um júri absolveu o acusado de assassinar uma criança, sob a justificativa de ter se confundido. Ora, errar é humano. Mais errar muito, desconfia-se. Troca de tiro sem tiro de volta? Bandidos que param o veículo e nada fazem para reagir ou fugir? Policial carioca sem a malandragem peculiar do local? Crime sem castigo. Um soldado, servidor público do Estado do Rio de Janeiro, provavelmente, carioca, ciente e acostumado com a cultura e com as ruas e as vielas fluminenses, convenceu que o que passou foi um filme de ação. A fita de câmera de um edifício próximo, usada como prova no julgamente, mostra , fidedignamente, apenas um veículo sendo alvejado a tiros por policiais investidos do poder público para proteger os seus concidadãos. Não. Foi um erro. Não. Foi legítima defesa. Não. São os ócios (ou ossos?) do ofício. Enfim, mais um número em estatísticas de teóricos sobre segurança pública, em seus escritórios, com olhares virtuais. Outro dia, foi um colega de corporação que, para defender seu emprego de segurança privado, matou um jovem envolvido com briga numa boate também do Rio de Janeiro. Um funcionário exemplar não pode ser punido. O que seria uma briga com socos e hematomas, tornou-se um prêmio de condecoração para o empregado do mês.
Quem pode matar? Seguranças ou policiais? Esse ou aquele? Outro ou um?
Quem pode morrer?
A justiça cega, velha e com a esperança.
11/12/08 - 18h39 - Atualizado em 11/12/08 - 20h29
8.12.08
26.11.08
Memórias de uma pedra
De pedra nasce pedra. Não é à toa que o etimo de um dos exemplos humanos mais respeitado vem do reverso do sedimento - Pedro; pedra. Mostra-nos a imponência de um dos divinamente eleitos. Água mole, pedra dura; duro feito pedra; passarinho que come pedra...são alguns exemplares do ícone exaltado neste espaço mais erosivo de opinião. Tudo é pedra. Desde a idade da pedra lascada até os terríveis caminhos das pedras, o homem não pode sequer conceber sua existência sem os conglomerados de minérios. Silício, computador; pedra. Dois dos componentes deste hebdomadário virtual, Cahoeiro de Itapemerim; pedra em tupi. Coração de pedra também chora. Pedra com pedra; fogo. Para viver e habitar outro mundo, dê-me somente as pedras de meu caminho; pois, até sou capaz de tirar leite de pedra.
Sou pedra, sou forte
sou filho da sorte
guerreiro Rubi!
Da empreiteira pujante,
Que agora anda errante
Por fado inconstante,
herdeiros, nasci;
Sou bravo, sou forte,
Sou filho do corte;
Minha faísca de morte,
herdeiros, parti.
Já vi cruas brigas,
De pedras imigas,
E as duras fadigas
Do atrito provei;
Nas ondas mendaces
Senti pelas faces
Os abrasivos fugaces
Dos ventos que amei.
Ai, Juca, pedra que ama!
25.11.08
Qual é a sua cota?
Atentem bem aos que estão destacados. Além de não incentivar à cultura ou ao acesso a ela, querem ainda dificultar o que já existe para diminuir o abismo colossal entre os citadinos. Cotas nas universidades; cotas em cargos públicos; cota para os transeuntes frequentadores de veículos de massa; agora, cota para a cultura. Isso não é censura? Quando foi para classificar os programas, interessados, ou não, apareceram na mídia para atacar o governo, estigmatizando-o de censor. No entanto, quando é para os interesses do outro lado oculto das finanças, não há problema: ganha-se artista, ganha-se diretor; ganha-se produtor; ganha-se muito e privilegiados. Se o problema são os crimes, coibem-se. O justo não poderá pagar pelos pecadores. Se há muitos desvios da norma, então pensa-se no modelo vigente. Por exemplo, aumenta-se o número de casas de espetáculo, de peças, de exposição; exige-se modelo padrão nas carteiras de identificação dos discentes, com símbolo oficial; ou até paga-se a diferença às casas de show, sugerindo às escolas escolherem tais atividades como sendo mais uma forma de avaliação. Senadores, deputados, pensai-vos. E não nos furtem o direito de sermos livres para pensar; para aprender.
2 horas, 54 minutos atrás
A Comissão de Educação do Senado aprovou hoje o projeto da senadora Marisa Serrano (PSDB-MS) que regulamenta a meia-entrada em casas de espetáculo, cinemas, shows artísticos, culturais e esportivos. A regra vale para estudantes e idosos com mais de 60 anos de idade. O projeto restringe a emissão da carteira de estudante apenas para matriculados em ensino regular e impõe uma cota de 40% de meia-entrada por espetáculo. O projeto combate a indústria de carteiras de estudante falsas que proliferou no País desde 2001, quando foi permitida a emissão de carteira por qualquer entidade, sem a necessidade de comprovação do estudante. O projeto também cria o Conselho Nacional de Fiscalização, Controle e Regulamentação da Meia-Entrada e de Identificação Estudantil, que será vinculada à Secretaria-Geral da Presidência da República. A sessão de votação, na Comissão, foi prestigiada por artistas e produtores. Entre eles estavam Christiane Torloni, Wagner Moura e Beatriz Segall. Os artistas vinham reclamando do prejuízo nos shows e espetáculos com o derrame das carteiras de estudante falsas, que chegavam a ocupar 80% dos espetáculos, obrigando a elevação do preço do ingresso para os não-estudantes. O projeto segue agora para o plenário do Senado e, se aprovado, seguirá para a Câmara. Caso não ocorra alteração, será encaminhado depois para a sanção presidencial. A expectativa é de que o projeto só entrará em vigor no primeiro semestre de 2009.
http://br.noticias.yahoo.com/s/25112008/25/manchetes-comissao-senado-aprova-projeto-da.html
21.11.08
O apagar da noite
Não sei se estrela pode apagar-se. Estrelas, brilho eterno. Muito se sabe dos brilhos de aluguéis, de pessoas-luas que orbitam a fonte luminosa. Dinheiro, fama, êxito e reconhecimento deveriam ser metas cabais de satisfação plena; mas, não. São centelhas insaciáveis de ambição para a vaidade humana - o anti-brilho das estrelas. Para adentrar ao tema, requer coragem e força, a fim de aprofundar-se densamente nas mais inerentes peculiaridades humanas. Como funciona ou o que determina o constructo idiossincrático de cada indivíduo? Há a cultura; há a educação referencial das escolas e, fundamental do núcleo familiar; há o círculo de amizades e de conhecidos e há a procura de acordo com a afinidade de se aprender. Muitas são as faces desse poliedro complexo de contrução de personalidade. Os caminhos podem ser traçados; no entanto, existem os já determinados pelas normas perenes - a genética, a família e conjuntura fenomológica singular por que passam cada ser vivente. O caso do ator da Globo, assumida, publicamente, a sua dependência química, mostra-nos o quão somos fatalmente levados ao nosso derradeiro destino. Além de suas fraquezas, a força oposta dos ranger dos dentes, das luas-inquilinas, faz com que, cada vez mais, o brilho do sucesso transforme-se em sombra do ostracismo. - Mais do que ser o que se deseja, somos, muitas vezes, aquilo que querem que sejamos. A luta é desigual.
Um contra todos. Um produto a ser valorado pelas regras mercadológicas, em que se manter notório e vendável é o objetivo ímpar. Não sou. Tenho... De intransitivo, a posição verbal dá o lugar a transitividade direta. Quanto mais tenho, menos sou o que fui. Vai-se a força, o preparo, a dedicação, a família, os amigos, os amores, o centro da lucidez e do bom senso - O dinheiro é troca; não, cimento com tijolos.
Triste. Muito triste.
Pedras, chorai-vos.
Pedras apaixonadas
Linha do equador
Caetano Veloso
Composição: Caetano Veloso / Djavan
Luz das estrelas
Laço do infinito
Gosto tanto dela assim
Rosa amarela
Voz de todo grito
Gosto tanto dela assim
Esse imenso desmedido amor
Vai além de seja o que for
Vai além de onde eu vou
Do que sou minha dor
Minha linha do Equador
Esse imenso desmedido amor
Vai além de seja o que for
Passa mais além do céu de Brasília
Traço do arquiteto
Gosto tanto dela assim
Gosto de filha
Música de preto
Gosto tanto dela assim
Essa desmesura de paixão
É loucura do coração
Minha Foz do Iguaçu
Polo sul, meu azul
Luz do sentimento nu
Esse imenso desmedido amor
Vai além de seja o que for
Vai além de onde eu vou
Do que sou minha dor
Minha linha do Equador
Mas é doce morrer neste mar
De lembrar e nunca esquecer
Se eu tivesse mais alma pra dar
Eu daria, isto pra mim é viver
Céu de Brasília, traço do arquiteto
Gosto tanto dela assim
Gosto de filha, música de preto
Gosto tanto dela assim
Essa desmesura de paixão
É loucura do coração
Minha Foz do Iguaçu, polo Sul
Meu azul, luz do sentimento blue
Esse imenso desmedido amor
Vai além de seja o que for
Vai além de onde eu for, do que sou
Minha dor, minha linha do Equador
Mas é doce morrer neste mar de lembrar
E nunca esquecer
Se eu tivesse mais alma pra dar
Eu daria, isto pra mim é viver
Caetano Veloso
Composição: Caetano Veloso / Djavan
Luz das estrelas
Laço do infinito
Gosto tanto dela assim
Rosa amarela
Voz de todo grito
Gosto tanto dela assim
Esse imenso desmedido amor
Vai além de seja o que for
Vai além de onde eu vou
Do que sou minha dor
Minha linha do Equador
Esse imenso desmedido amor
Vai além de seja o que for
Passa mais além do céu de Brasília
Traço do arquiteto
Gosto tanto dela assim
Gosto de filha
Música de preto
Gosto tanto dela assim
Essa desmesura de paixão
É loucura do coração
Minha Foz do Iguaçu
Polo sul, meu azul
Luz do sentimento nu
Esse imenso desmedido amor
Vai além de seja o que for
Vai além de onde eu vou
Do que sou minha dor
Minha linha do Equador
Mas é doce morrer neste mar
De lembrar e nunca esquecer
Se eu tivesse mais alma pra dar
Eu daria, isto pra mim é viver
Céu de Brasília, traço do arquiteto
Gosto tanto dela assim
Gosto de filha, música de preto
Gosto tanto dela assim
Essa desmesura de paixão
É loucura do coração
Minha Foz do Iguaçu, polo Sul
Meu azul, luz do sentimento blue
Esse imenso desmedido amor
Vai além de seja o que for
Vai além de onde eu for, do que sou
Minha dor, minha linha do Equador
Mas é doce morrer neste mar de lembrar
E nunca esquecer
Se eu tivesse mais alma pra dar
Eu daria, isto pra mim é viver
Mente aberta como pedra
Eclipse Oculto
Caetano Veloso
Composição: Caetano Veloso
Nosso amor
Não deu certo
Gargalhadas e lágrimas
De perto
Fomos quase nada
Tipo de amor
Que não pode dar certo
Na luz da manhã
E desperdiçamos
Os blues do Djavan...
Demasiadas palavras
Fraco impulso de vida
Travada a mente na ideologia
E o corpo não agia
Como se o coração
Tivesse antes que optar
Entre o inseto e o inseticida...
Não me queixo
Eu não soube te amar
Mas não deixo
De querer conquistar
Uma coisa
Qualquer em você
O que será?
Como nunca se mostra
O outro lado da lua
Eu desejo viajar
Do outro lado da sua
Meu coração
Galinha de leão
Não quer mais
Amarrar frustação
O eclipse oculto
Na luz do verão...
Mas bem que nós
Fomos muito felizes
Só durante o prelúdio
Gargalhadas e lágrimas
Até irmos pro estúdio
Mas na hora da cama
Nada pintou direito
É minha cara falar
Não sou proveito
Sou pura fama....
Não me queixo
Eu não soube te amar
Mas não deixo
De querer conquistar
Uma coisa
Qualquer em você
O que será?
Nada tem que dar certo
Nosso amor é bonito
Só não disse ao que veio
Atrasado e aflito
E paramos no meio
Sem saber os desejos
Aonde é que iam dar
E aquele projeto
Ainda estará no ar...
Não quero que você
Fique fera comigo
Quero ser seu amor
Quero ser seu amigo
Quero que tudo saia
Como som de Tim Maia
Sem grilos de mim
Sem desespero
Sem tédio, sem fim...
Não me queixo
Eu não soube te amar
Mas não deixo
De querer conquistar
Uma coisa
Qualquer em você
O que será?
Caetano Veloso
Composição: Caetano Veloso
Nosso amor
Não deu certo
Gargalhadas e lágrimas
De perto
Fomos quase nada
Tipo de amor
Que não pode dar certo
Na luz da manhã
E desperdiçamos
Os blues do Djavan...
Demasiadas palavras
Fraco impulso de vida
Travada a mente na ideologia
E o corpo não agia
Como se o coração
Tivesse antes que optar
Entre o inseto e o inseticida...
Não me queixo
Eu não soube te amar
Mas não deixo
De querer conquistar
Uma coisa
Qualquer em você
O que será?
Como nunca se mostra
O outro lado da lua
Eu desejo viajar
Do outro lado da sua
Meu coração
Galinha de leão
Não quer mais
Amarrar frustação
O eclipse oculto
Na luz do verão...
Mas bem que nós
Fomos muito felizes
Só durante o prelúdio
Gargalhadas e lágrimas
Até irmos pro estúdio
Mas na hora da cama
Nada pintou direito
É minha cara falar
Não sou proveito
Sou pura fama....
Não me queixo
Eu não soube te amar
Mas não deixo
De querer conquistar
Uma coisa
Qualquer em você
O que será?
Nada tem que dar certo
Nosso amor é bonito
Só não disse ao que veio
Atrasado e aflito
E paramos no meio
Sem saber os desejos
Aonde é que iam dar
E aquele projeto
Ainda estará no ar...
Não quero que você
Fique fera comigo
Quero ser seu amor
Quero ser seu amigo
Quero que tudo saia
Como som de Tim Maia
Sem grilos de mim
Sem desespero
Sem tédio, sem fim...
Não me queixo
Eu não soube te amar
Mas não deixo
De querer conquistar
Uma coisa
Qualquer em você
O que será?
18.11.08
Correspondente do além-céu

Mais uma pedra para este aerópago virtual. Mais uma de Goiás, da cidade das pedras mais bonitas. Seja bem-vinda Pedra! A segunda maior pedra de nosso caminho. Não é nenhuma esmeralda, mas possui um valor inestimável - o valor histórico-científico. 2,5 toneladas! Massa e muita estória para contar.
18/11/08 - 12h19 - Atualizado em 18/11/08 - 13h14
Fazendeiros encontram segundo maior meteorito do Brasil
Meteorito foi localizado no interior de Goiás.Objeto metálico pesa cerca de 2,5 toneladas.
Do G1, em São Paulo, com informações da TV Anhanguera
Moradores de uma fazenda no interior de Goiás descobriram, por acaso, um meteorito que lembra aço na sua propriedade. Um pedaço do material foi encaminhado para o Museu Nacional do Rio de Janeiro analisar. A instituição catalogou e afirmou que ele é o segundo maior já encontrado no Brasil. A suspeita é que tenha caído há centenas de anos e pesaria 2,5 toneladas.
O fazendeiro Eli Braz de Oliveira encontrou a rocha na propriedade da família, mas pensou que fosse uma pedra de manganês. Assim, durante anos a peça foi ignorada pelos proprietários. Recentemente, para verificar, retirou uma amostra do objeto e enviou para a análise. A astrônoma Maria Elizabeth Zucolotto, do Rio de Janeiro, foi quem examinou a peça.
Ao descobrir que se tratava de um material incomum, o fazendeiro Oliveira decidiu retirar o meteorito do local. Enterrou o objeto em uma casa na cidade de Campinorte, a 300 km da capital Goiânia, e saiu da fazenda. Isso porque os fazendeiros pretendem vender o meteorito por um milhão de reais.
Meteoritos são fragmentos de asteróides, planetas ou cometas. Podem ser rochosos ou metálicos. A maioria se desintegra na atmosfera, mas alguns atingem a superfície da Terra.
http://g1.globo.com/Noticias/Ciencia/0,,MUL866266-5603,00-FAZENDEIROS+ENCONTRAM+SEGUNDO+MAIOR+METEORITO+DO+BRASIL.html
17.11.08
Pedrinhas...
Frases e pensamentos voam livremente nas mentes dos poetas. O sonho sempre acaba; como, qualquer criança, o homem cresce com dúvida, com as mesmas dúvidas que não são explicadas ou entendidas. Por quê?
Diante de uma criança
Como fazer feliz meu filho?
Não há receitas para tal.
Todo o saber, todo o meu brilho
de vaidosa intelectual
vacila ante a interrogação
gravada em mim, impressa no ar.
Bola, bombons, patinação
talvez bastem para encantar?
Imprevistas, fartas mesadas,
louvores, prêmios, complacências,
milhões de coisas desejadas,
concedidas sem reticências?
Liberdade alheia a limites,
perdão de erros, sem julgamento,
e dizer-lhe que estamos quites,
conforme a lei do esquecimento?
Submeter-se à sua vontade
sem ponderar, sem discutir?
Dar-lhe tudo aquilo que há
de entontecer um grão-vizir?
E se depois de tanto mimo
que o atraia, ele se sente
pobre, sem paz e sem arrimo,
alma vazia, amargamente?
Não é feliz. Mas que fazer
para consolo desta criança?
Como em seu íntimo acender
uma fagulha de confiança?
Eis que acode meu coração
e oferece, como uma flor,
a doçura desta lição:
dar a meu filho meu amor.
Pois o amor resgata a pobreza,
vence o tédio, ilumina o dia
e instaura em nossa natureza
a imperecível alegria.
Carlos Drummond de Andrade - 1996. "Farewell".
Diante de uma criança
Como fazer feliz meu filho?
Não há receitas para tal.
Todo o saber, todo o meu brilho
de vaidosa intelectual
vacila ante a interrogação
gravada em mim, impressa no ar.
Bola, bombons, patinação
talvez bastem para encantar?
Imprevistas, fartas mesadas,
louvores, prêmios, complacências,
milhões de coisas desejadas,
concedidas sem reticências?
Liberdade alheia a limites,
perdão de erros, sem julgamento,
e dizer-lhe que estamos quites,
conforme a lei do esquecimento?
Submeter-se à sua vontade
sem ponderar, sem discutir?
Dar-lhe tudo aquilo que há
de entontecer um grão-vizir?
E se depois de tanto mimo
que o atraia, ele se sente
pobre, sem paz e sem arrimo,
alma vazia, amargamente?
Não é feliz. Mas que fazer
para consolo desta criança?
Como em seu íntimo acender
uma fagulha de confiança?
Eis que acode meu coração
e oferece, como uma flor,
a doçura desta lição:
dar a meu filho meu amor.
Pois o amor resgata a pobreza,
vence o tédio, ilumina o dia
e instaura em nossa natureza
a imperecível alegria.
Carlos Drummond de Andrade - 1996. "Farewell".
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